Reforçar as comunicações do setor que gerará divisas para a Argentina é o objetivo da Datco

Diante do cenário econômico desafiador da Argentina, Horacio Martínez, CEO do Grupo Datco, Board Member e especialista no setor, destaca a estratégia da companhia de telecomunicações para viabilizar a entrada de divisas: a implementação de redes de alta performance voltadas aos setores produtivos.

Infraestrutura & Conectividade

Sob a ótica de um dos empresários com maior experiência em comunicações na Argentina, Horacio Martínez, CEO do Grupo Datco, o país precisa concentrar todos os seus esforços na geração de divisas necessárias para equilibrar suas contas. Por isso, o grande projeto da companhia é acompanhar com conectividade de alta qualidade os setores produtivos, como a região da jazida de Vaca Muerta, na Patagônia, que são os verdadeiros geradores de divisas.

O Grupo Datco nasceu há mais de 40 anos oferecendo infraestrutura de TI e atualmente é uma provedora integrada de serviços de TI e telecomunicações. Baseada na Argentina, possui diversas unidades de negócios, como a Silica Networkscarrier com mais de 14 mil quilômetros de fibra óptica que conecta Buenos Aires (Argentina), Santiago (Chile) e São Paulo (Brasil); a Velocom, que presta serviços de Internet para o usuário final, além de atuar como canal de distribuição de grandes players de tecnologia como IBM, Microsoft e Red Hat. Atualmente, o grupo já marca presença no Brasil, Chile, México, Peru, Porto Rico e Uruguai.

DPL News: Considerando todas as unidades de negócios do Grupo Datco, qual é o seu principal projeto hoje?

Horacio Martínez: Nós fomos moldados para operar nesses países onde não se tem um cenário previsível. Hoje você não sabe se conseguirá importar um rolo de fibra óptica ou equipamentos FTTH. Mas uma coisa é certa: a Argentina perdeu sua capacidade de curto prazo para gerar divisas. Portanto, os melhores negócios devem se alinhar à capacidade de ajudar a Argentina a obter divisas novamente. Onde vamos conseguir essas divisas? Em investimentos e exportações. Sendo assim, estamos focados em otimizar nossa infraestrutura de rede na região de Vaca Muerta, pois as petroleiras demandarão alta conectividade. Temos um plano para robustecer as comunicações na Patagônia por conta de diversos projetos de investimento locais, mas nosso foco principal é atender às empresas geradoras de receita externa. Estamos trabalhando também em projetos para fornecer conectividade a empresas que operam na extração de lítio. Nossos clientes futuros serão aqueles com perfil exportador que exigem redes robustas de comunicação para suas operações. Infelizmente, a Argentina precisa começar a exportar se quiser sobreviver. Além disso, estamos direcionando esforços para potencializar as operações nos demais países da América Latina onde estamos presentes.

Como realizar o planejamento de longo prazo enfrentando as dificuldades econômicas da Argentina?

Como empresa de tecnologia, somos agnósticos. Nossa principal referência é sempre a demanda real do cliente. Um especialista de tecnologia tradicional diria: 'vou apostar todas as minhas fichas em IoT'. A visão da Datco sempre foi entregar ao cliente exatamente a tecnologia que ele necessita, e por isso nosso portfólio inclui soluções de parceiros como SAP, IBM, Red Hat e Microsoft. Fazendo uma metáfora: o que aprendemos foi a sacar a arma e atirar rápido. Nossos concorrentes costumam planejar no longo prazo, com decisões muito cadenciadas. Aqui, a prioridade é agilidade de resposta quando surge uma oportunidade. É inviável planejar detalhadamente em um país com essas taxas de inflação. O foco essencial deve ser apoiar quem tem capacidade de gerar divisas.

E o que os clientes têm demandado mais? Maior conectividade, serviços de Cloud?

O cliente está tão confuso quanto nós, diante da elevação nas taxas de juros globais e da instabilidade bancária internacional. Continuamos vendendo largura de banda e o consumo segue em trajetória de crescimento. Quanto tempo isso vai durar? Não sabemos. No entanto, o ciclo está mudando. Voltamos a ser um país de baixo custo operacional, similar ao cenário de 2001, quando fomos um grande polo de call centers por essa razão financeira, embora o panorama sindical posterior tenha mudado esse ecossistema, esvaziando esses call centers na Argentina.

Com os indicadores macroeconômicos atuais da Argentina, para muitos empresários da região é um mistério como manter uma operação sustentável no país.

Em um simulador de voo, há um instrutor que altera as variáveis rapidamente para expor o piloto a condições adversas de treinamento, simulando falhas nos motores ou incêndios. Na Argentina, o governo faz isso de forma constante e sem custos: restringe o fluxo de divisas, altera regras de câmbio, limita ou concede linhas de financiamento repentinamente. Esse ambiente nos obriga a desenvolver um altíssimo nível de resiliência e adaptabilidade rápida. Isos não nos torna necessariamente melhores, mas nos torna mais adaptáveis. Como já dizia a teoria de Darwin, a espécie que sobrevive não é a mais forte, mas a que melhor se adapta. Sendo assim, construímos uma cultura forte de adaptabilidade que, embora não se traduza em crescimento financeiro imediato, nos confere um excelente training. Em cenários de crise, surgem oportunidades consistentes para as empresas locais.

Não me cabe dar conselhos formais, mas a lógica de mercado sugere cautela: 'proteja seus ativos, vá devagar na concessão de crédito, pois o risco de inadimplência é alto', o que nos torna mais conservadores. É preciso focar em negócios seguros, pois são tempos de consolidação de mercado e de ganho de share. É aí que reside a grande vantagem competitiva dos players locais.

E em relação às operações internacionais, qual é a estratégia?

No México e no Brasil mantemos estruturas de nicho, pois não buscamos sustentar grandes operações genéricas nesses mercados. Em novos territórios, entramos com soluções inovadoras. Estamos concentrando esforços no desenvolvimento de produtos voltados para Realidade Aumentada nessas regiões.

Como está o ritmo de expansão da rede de fibra óptica da Silica Networks?

Por meio de parcerias estratégicas, estamos expandindo a infraestrutura em direção ao Paraguai, com entrada gradual por Encarnación. Estamos levando conectividade internacional de trânsito ao Paraguai, que é um país com acesso limitado a saídas internacionais diretas. Além disso, em conjunto com as províncias do norte argentino, estruturamos a Rede Capricórnio, o que nos permite conectar ao Paraguai a partir de Formosa, que geograficamente está mais próxima de Assunção.

Sobre o projeto em Vaca Muerta: quais são as vantagens reais que uma conectividade de alta performance pode trazer para esse ecossistema produtivo?

Durante muito tempo, as empresas petrolíferas operaram com largura de banda extremamente limitada. Diante disso, quando abordamos um cliente acostumado com essa restrição e oferecemos alta capacidade de banda perguntando 'qual volume de dados você precisa contratar?', muitas vezes o próprio cliente ainda não está estruturado para demandar essa capacidade. Nosso papel é consultivo, explicando como a transformação digital e a infraestrutura de rede robusta viabilizam a automação de processos. A conectividade de alta performance permite insights e monitoramento antes impossíveis, mas é preciso amadurecer a operação para usufruir disso. O processo de adaptação tecnológica também deve ocorrer do lado do cliente.

Como está evoluindo o projeto de conectividade para a Antártica?

É uma iniciativa que caminha em uma velocidade menor do que prevíamos; o principal gargalo é a complexidade regulatória e geopolítica da Antártica. Nosso objetivo inicial era capitanear um projeto multinacional, envolvendo Argentina, Chile e, se possível, Brasil e Uruguai, alavancando nossa capilaridade de rede no Cone Sul.

Entretanto, enfrentamos barreiras com visões excessivamente nacionalistas de ambos os lados: agentes no Chile questionando a participação argentina, e vice-versa. Esse tipo de impasse político acaba travando o avanço prático do projeto.

Na primeira fase, que compreende a travessia do Canal de Beagle, solicitamos as autorizações de pesquisa para mapeamento do leito marinho, mas o processo burocrático é lento. Além disso, é uma rota de intenso tráfego de navios transatlânticos, e o maior risco físico para cabos de fibra óptica são as hélices das embarcações, o que exige um planejamento de traçado minucioso. Somado a isso, teremos uma intersecção com a infraestrutura de fibra chilena que chega a Puerto Williams (Chile), o que representa um grande desafio de engenharia e regulação.

Fonte: DPLnews.com

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